A sexta-feira e a água

Foto: Tomada de Internet.

Foto: Tomada de Internet.

Cristian Bernal Niño

Tradução: Cristian Bernal Niño e Brunello Amorim

O dia de hoje começou exatamente as 00:00 no meio dum ensaio para a aula que terminou perto das 3:00. Fui dormir entre historias de mortos inacabadas e piadas óbvias às 3:30. Continuou as 7:23, hora que o alarme tocou e me acordou para ir para a faculdade. Seguiu às 8:20 quando fui parte da linguiça humana feita de ferro crocante e aço inoxidável que vai e volta embaixo das grandes avenidas da cidade. Fugi antes do tempo por um conselho errado que me fez caminhar seis o sete ruas a mais embaixo da chuva.

As 13:00, depois de uma aula tranquila saí da faculdade (ainda embaixo da chuva) e caminhei de novo procurando o sistema de transporte subterrâneo que tem a “vantagem” de transportar quinhentas pessoas num espaço feito para cem. Com a esperança de chegar em casa com tempo suficiente para tomar um banho quente e receber um pouco de carinho do violão para esquecer a chatice da cidade.

As 15:25, depois de ficar mais de 40 minutos no ponto de ônibus – o que não acontece normalmente – eu já sem paciência olhava para o céu pensando se as nuvens cinzas estavam unicamente na cima da minha cabeça e tentava (como se pudesse) calcular a quantidade de romantismo que tem as coisas embaixo dessa coberta obscura que destilava pequenas peças de si mesma do jeito infame, sobre meu desespero. As mesmas que me fizeram resolver mudar a rota para chegar cedo no trabalho mas com a condição de viajar de novo.

Magicamente sendo as 15:58 cheguei ao trabalho sem a preocupação de dizer o que aconteceu. Além de ter procurado no meu arsenal de arrependimentos para esses casos e com a sensação leve de ter meu cabelo enferrujado depois de todo o líquido, nesse momento desprezado, que tinha caído sobre minha cabeça. Foi exatamente as 16:09 que começou a jornada de trabalho, telefone ao ombro. Oferecimento vai e reclamação chega, e se a reclamação vem com um “ta osso”, o salvavidas do momento: “Vou passar o senhor com a área indicada, plop!” sumiu o cliente e o problema (bendita seja a impunidade dos operadores de telemarketing).

O relogio marcava as 21:52 e sem choques maiores terminou mais uma jornada de trabalho que teve no meio um McRoullete, com batatas pequenas e refrigerante de cola, cujo efeito digestivo começou a ordenar evacuação as 22:25 já indo para casa.

Eu acho que a pressa de chegar no banheiro adicionada com minha mente que mora nas nuvens não me deixaram olhar na porta do conjunto dois operadores da empresa da água da cidade. Mas alguém tinha que me dar as novidades óbvias que não tinha visto. Esse alguém era a vizinha que nunca tinha falado comigo na sua vida. Ela estava no final das escadas do terceiro andar esperando alguém com a necessidade de compartilhar a raiva escondida atrás do seu falso sorriso, e sim querido leitor ou leitora, depois das seguintes palavras eu vi de novo a nuvem cinza na cima da minha cabeça:

– O edificio ta sem água.

Eu aceitei o jogo dos falsos sorrisos e do mesmo jeito respondi para ela.

-Ta bom, a gente vai ter que esperar com paciência. E entrei em casa.

Dentro da casa meu maior desejo era gritar o mais forte possível mas não estava em condições de fazer força abdominal nenhuma antes de ter a certeza que na casa houve qualquer liquido não tóxico para respaldar meu esforço.

Sem mais que a resignação fiquei com saudades da tarde e pensei que só com a água que caiu na minha cabeça no dia inteiro bastava para o que eu precisava. Porém ela já não estava mais comigo, ficou se sentindo desprezada e foi embora me deixando abandonado, miserável e carente. Escrevendo uma crônica de desgosto de nós dois. Com certeza a água é uma dama com muito poder.

Se alguém a viu por favor, diga que me perdoe, que já são as 00:42 dum novo dia e ainda preciso dela para terminar meu relato.

Texto publicado en: http://dibutteco.wordpress.com/